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quarta-feira, 20 de março de 2019

"Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura" - Nietzsche

Mar de Outono


Era uma tarde fria. Nas ruas, os poucos passantes que ainda se via estavam apressados para chegarem aos seus lares depois de um dia de trabalho. No céu, as nuvens se tornavam mais baixas a cada instante e o sol sumia timidamente no horizonte avermelhado misturando-se ao azul sombrio do oceano.
Sentada no cais, uma menina: em média onze anos, magra, pequena, nada de exuberante para quem a visse de longe. Olhava o mar e sorria vagamente; porém, tinha um sorriso significativo. Seu olhar estava distante, mas havia nele um brilho de felicidade. Às vezes respirava fundo, tragando com prazer o vento frio e sublime que também lhe entrelaçava os cabelos; fechava os olhos jogando a cabeça para trás, fazendo com que seu corpo ficasse ainda mais leve, deixando clara a impressão de que sonhava um sonho tão maravilhoso, que um mortal não poderia supor.
Estava distraída, como se sua alma não estivesse ali. Apenas sorria o sorriso de uma musa que inspira o poeta e o pintor. Mas, naquele momento, era ela quem era inspirada pelo vento que soprava do mar. Não a incomodavam o frio e o estado de quase deserto em que se encontrava a cidade. O que ela queria, era sentir a magia desta estação que encanta e que leva o homem, tão dono de si, forte, altivo e auto-suficiente a refletir sobre sua frágil condição.
É! Realmente ela não estava ali.
 Seus pensamentos voavam, iam longe, ou talvez nem pensasse em nada. Apenas sofria a dor prazerosa de ser tão pequena diante de um mar de outono.
 Enfim, veio a chuva, mas ela não desanimou. Agora bailava descalça na areia molhada, com os braços abertos, rosto para cima, sentindo os suaves pingos que caíam incertos.
Alguém se aproximou com repreensão lhe trazendo de volta à realidade.
Ela respondeu com delicadeza:
- Há quanto tempo você não olha uma estrela ou sente o vento em seu rosto?
         Como não obteve resposta, ela continuou:
         - Aproveite que estamos no outono e, diante desse mar, perceba o quanto somos passageiros desta vida tão breve. Deixe seus “grandes” problemas para trás e feche os olhos. Por que você não pode voltar a ter onze anos apenas por um instante?
          A pessoa refletiu e meneou a cabeça preocupada, olhando para dentro de si.
          Ela continuou:
          - Não podemos deixar para depois. O que a natureza está nos dando é agora! Depois será inverno e ninguém sabe se irá sobreviver.

quinta-feira, 14 de março de 2019

"Isso não significa nada. Eu dou a tudo o que eu vejo todo o significado que tem pra mim"

O que eu nasci pra viver?

Quanto tempo perdemos na vida fazendo coisas que não nos fazem bem, apenas vamos levando do jeito que dá pra levar, no final nos damos como recompensa diversões que em nada nos preenchem o nosso vazio. A semana termina, o fim de semana nos alivia, e depois tudo recomeça. No final do mês recebemos nosso salário, nos damos mais presentes que não somam em nada na nossa vida, o salário acaba, e o restante do mês fazemos de novo coisas das quais não gostamos, e continuamos assim até o dia da aposentadoria ou morte.
Na verdade não precisa ser assim. E não é pra ser assim. Não acredito que quando Deus nos criou e nos deu a vida tenha sido para ser assim. Simplesmente nadamos contra a corrente dos nossos sonhos, vamos contra ao que pede a nossa alma. 
Temos uma missão de vida, um propósito, nascemos com uma finalidade, mas nos esquecemos disso quando vamos crescendo e nos permitindo que energias tóxicas invadam o lugar dos nossos sonhos, muitas vezes nem nos lembramos mais deles, somos levados a acreditar que a vida é só isso e que não adianta desejar e lutar para que seja diferente. Apenas achamos mais fácil nos acomodar, e nos acomodamos.
Precisamos, então, preencher nossas vidas com bebida, diversão, noitadas, amores não correspondidos, porque na verdade o que fazemos é fugir de nós mesmos, não suportamos encarar a verdade de que fracassamos e cedemos à pressão de não viver os nossos propósitos.
Somos parte de uma máquina, mas não a do sistema. Fomos inseridos no sistema e contribuímos para o funcionamento dele, entretanto o sistema do qual verdadeiramente fazemos parte é o sistema do Universo. Somos parte essencial para a sua homeostase, seu equilíbrio e harmonia. Contribuímos vivendo os sonhos da nossa alma, a essência dela. Quando nos afastamos do propósito para o qual nascemos, somos infelizes e buscamos formas de preencher esse vazio no qual nos permitimos estar: vivendo a profissão que não queremos, presos a religiões e dogmas que não fazem sentido, presos em relacionamentos doentios ou que não nos fazem felizes. Tudo isso porque não nos lembramos do para quê nascemos.
Estamos apenas levando a vida como dá pra levar, esperando ansiosamente pelo fim de semana, pelo fim do mês, pelas férias.
Até quando vamos continuar a fazer isso com nós mesmos? Nos agredindo e agredindo a nossa essência, que é a nossa parte divina?
O que é viver? O QUE É VIVER DE VERDADE?
Não precisa ser do jeito que tem sido a vida toda até a morte. NÃO.Não nascemos pra isso. Vamos acordar, despertar dessa matrix e fazer uma vida diferente. Felicidade não está no fim de semana, nas férias e no salário no final do mês. Felicidade está em despertar para vivermos o que nascemos para viver. Viver o propósito da nossa alma. O segredo está em descobrir a resposta para essa pergunta: O que eu nasci para viver?
Se pergunte isso. namaste.

quarta-feira, 13 de março de 2019

Urbes

 Ah! Esses pobres que vão chegando e ficando... Se estabelecendo, poluindo a paisagem de pobres.
Aquela paisagem que era verde, verdinha, colorida, arejada. Agora é marrom, suja, fétida... Asfaltada. Pobre.
As cidades estão cheias de ricos promitentes. Pobres promissores. Ricos decadentes e pobres declinantes.
Em toda parte, há pobres. No meio da paisagem verde, verdinha, pobres. O marrom. Os pobres.
No meio dos ricos, os ricos pobres e os pobres pobres.
Os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais pobres.
- E quem controla tudo isso?
- Os pobres ricos.


A Mosca

Às vezes gosto de observar a mosca no seu mundinho calmo e sereno. Olho aquele ser pequenino que não se afeta com absolutamente nada. Pode acontecer terremoto, enchente, briga, mas ela continua com a sua irritante serenidade de sempre.
Sim. Ela é irritante, mas, como eu disse, gosto de observá-la. Ela é empenhada e obstinada. Vem, como se não quisesse nada, rodeia a gente sem cerimônia, senta na perna, no braço, na cabeça. Enfim, estuda toda anatomia de um corpo. Mesmo sendo enxotada, continua medindo, sentindo o terreno onde pisa, afagando o seu objeto de estudo.
É um afagar que atormenta, porque ela é um ser nojento: lambe a ferida, se alimenta do lixo, do podre e, vem, depois, lamber minha comida, com a mesma calmaria de antes. Desse jeito, haja paciência!
O pior é que ela percebe que é detestada e insiste em me tirar do sério: esfrega maliciosamente as duas patinhas, mira o alvo - que sou eu - levanta as asinhas, como se fosse voar, dá um saltinho e volta para o mesmo lugar; ou, então, me engana se afastando por alguns segundos, me fazendo acreditar que foi embora. Depois volta, ora ao mesmo ponto onde estava, o que incomoda, coça, chateia de verdade; ora vai para outro ponto, me fazendo novamente pensar que acabou. Algumas vezes, a gente nem percebe que ela está ali há horas. Com isso, ela nos desafia para a briga. Aceito. Mas, quem disse que ela foge das chineladas? Sai voando e volta. Para na minha frente se equilibrando no ar, como beija-flor beijando a flor, dando às vezes a impressão de estar com a linguinha para fora: “Ih! Você não me pega!”. Imagino até suas mãozinhas nas bochechas – nem sei se mosca tem bochechas, nem quero saber -, mas só ouço sua voz zumbida, fazendo zunzum, ou zummmmmm, tirando fininho dos meus ouvidos.
Quando volta, tento novamente bater nela, matar, ou ao menos expulsá-la da minha presença, mas ela “nem te ligo”. Segue com sua vidinha, curta e despreocupada.
E quando elas fazem de mim o seu leito de amor? Que horror! Aí que eu fico na dúvida se ela não está nem aí pro mundo ou se é debochada mesmo.
Há certos momentos em que vou bem devagar para apanhá-la de surpresa, mas, com certeza, ela é esperta e mais, bem mais, ágil que eu. Ainda tem a vantagem de não usar óculos. Como vou vencê-la nessa luta ridícula, se eu tenho apenas dois olhos, e ainda por cima dependendo de óculos, enquanto ela é pluriocular e não precisa desses artifícios?
No final, lanço mão do aerossol. Ela dá uma parada, respira fundo, dá uma tossidinha, prende a respiração e depois desce ao chão em movimentos circulares, ainda bate as asas tentando se segurar a uma invisível linha suspensa no ar, lutando para não cair. Agora eu quem rio dela: “parece uma equilibrista descendo charmosamente da corda bamba”. Apenas até certo ponto, porque a partir daí não tem mais jeito: a certa altura despenca pesadamente sendo vencida pela lei da gravidade.
O interessante é que quando volto aos meus afazeres, a paz demora pouco. Não tarda muito a aparecer outra MOSCA.

terça-feira, 12 de março de 2019

Modelos de Assistência à Saúde e as Terapias Holísticas


O modelo assistencial de saúde no Brasil atualmente tende à humanização, em que o sujeito é tratado em sua integralidade, considerando-o em seu contexto social, a região e a população a que pertence. Desse modo, o doente não é apenas um corpo a ser tratado, mas alguém que é visto em seus aspectos biológicos, psicológicos e sociais. Entretanto, nem sempre foi assim e o país passou por um longo percurso até chegar ao que temos hoje em assistência.
Já na Primeira República, havia diversos modelos de saúde que cuidavam do combate às endemias e epidemias de modo a atender às exigências da economia da época. Embora, esse modelo fosse bastante funcional e o seja até hoje, ele é pautado no modelo biomédico. Após esse período outros modos de assistência entraram em voga no Brasil, até começar a sofrer algumas críticas. O modelo biomédico de assistência à saúde coloca o indivíduo como receptor de um tratamento e toda a sua subjetividade é desconsiderada, o tratamento é realizado de modo técnico, centrada na figura do médico e do hospital, o principal era a avaliação médica e o tratamento como se o indivíduo fosse uma máquina a ser consertada. Há nesse modelo a divisão das especialidades, cada uma delas responsável por uma parte dessa “máquina” chamada corpo humano.
Essa prática permeou a história de assistência à saúde durante muitos períodos, não apenas no Brasil. Aqui, na década de 1920, o número de trabalhadores cresceu devido à industrialização e fez-se necessário o atendimento dos trabalhadores para mantê-los saudáveis para o trabalho. Justifica-se aí, portanto, o modelo biomédico, que faz a “máquina” funcionar perfeitamente e atender às exigências da produção da indústria; na década de 1930, no governo de Getúlio Vargas, a assistência aos trabalhadores permanece, mas de forma diferente em relação à administração. Desenvolveu-se nesse período a ideia de que a saúde pública era para os menos abastados, já que os mais ricos procuravam assistência de médicos privados; na década de 1950, foi reforçada a política de investimento em centros e postos de saúde; em 1964, no auge da Ditadura Militar, o enfoque ainda era na assistência à saúde individual e, embora algumas mudanças tenham sido feitas, isso não garantiu a melhoria na saúde pública.
Com o rápido processo de urbanização, novas doenças e modos de adoecimento do sujeito surgem; por exemplo, doenças psicossomáticas causadas por problemas diretamente relacionados ao meio social do indivíduo. O modo de tratamento vertical da biomedicina já não dava conta de cuidar de todos os aspectos envolvidos no processo de adoecimento.
Na década de 1970 novas alternativas foram propostas como assistência de saúde. Surge a medicina comunitária, que fica caracterizada de “medicina pobre para os pobres”. Além disso, a medicina comunitária é vista como oposta ao governo militar e, com a organização de algumas universidades, surge um Movimento de Reforma Sanitária que resultou nas diretrizes em forma da Lei 8080/90, que é a Lei do SUS (Sistema Único de Saúde), sistema de assistência que temos hoje, e através do qual a saúde foi universalizada, ampliada democratizada dentre outros.
O modelo biomédico, sendo questionado, perdeu a sua força dando lugar ao novo modelo: o modelo de assistência à saúde integralizada., através da qual, o sujeito é cuidado para além do seu corpo e para além do indivíduo, mas tudo que está a ele relacionado é considerado. Por exemplo, uma pessoa com pressão artéria alta será medicada, exames podem ser pedidos, mas todos os outros aspectos envolvidos serão observados pelo médico, exemplo da alimentação, causas emocionais, que também se relaciona a como o sujeito se relaciona no seu espaço familiar, de trabalho etc.

Podemos ver no filme Um golpe do destino as duas fases dos modelos de assistência à saúde aqui no Brasil. No início do filme, temos um médico que pauta claramente seu trabalho no modelo biomédico, técnico, que vê o ser humano como um corpo/máquina a ser tratado, curado, consertado. Ele cuida dos pacientes apenas no corpo, ignorando que o ser humano não é apenas um corpo. Como ele é cirurgião, ele corta, retira o mal, substitui a peça, costura e os manda de volta para a casa. Nada além disso e o que pode se relacionar a sua saúde psíquica e emocional são levados em consideração, a exemplo da mulher que é operada para a retirada dos seios devido a um câncer. No filme, a personagem está claramente incomodada com o fato de perder seus seios e demonstra isso e a insegurança que tem em relação ao seu casamento após perde-los, o que é o símbolo da sua feminilidade. O médico em questão apenas faz uma brincadeira que a faz calar e voltar para a casa com suas inseguranças. Nesse caso, se o tipo de assistência fosse integral, ou integralizada, a mulher seria encaminhada a um psicólogo, pois o corpo havia sido tratado, mas sem ter considerado o seu estado emocional, que também é parte do sujeito e, portanto, parte da sua saúde.
Após adoecer, justificando o nome do filme, o médico experimenta o modelo de assistência do qual é ele mesmo praticante, tendo a oportunidade de colocar sua prática de médico em xeque. Fazendo uso da política de saúde do hospital em que trabalha, ele pode ver o quanto o ser humano que adoece necessita ser olhado de forma integral, em seus aspectos físicos e biológicos, mas também em seus aspectos sociais, familiares e psíquico e emocionais.

O que fica de discussão, e a questão que é levantada, é a respeito de como as práticas e os saberes dos profissionais de saúde podem minar o próprio tratamento do paciente, pois se ele fosse apenas um corpo, seria fácil. O problema é que um ser humano não é apenas um corpo, é um sujeito carregado de afetos de acordo com sua cultura, como o seu meio social e suas interações no dia a dia. O modelo de integralidade de assistência à saúde é o mais viável na cura do corpo, mas também no sujeito como um todo, de modo holístico como um todo.

É justamente na área da medicina holística, ou nas terapias holísticas que o terapeuta embasa o seu trabalho, nada é deixado de lado quando tratamos do sujeito e isso tem fundamental importância para o tratamento, pois muitas vezes não é o corpo que precisa de cura. As doenças em sua maioria expressiva têm mais a ver com o emocional, e até espiritual, que propriamente com causas externas. O sujeito é único, individual (etimologicamente "indivíduo" é algo que não se pode dividir, ele é único, com afetos, vivências, experiências, pensamentos, comportamentos e emoções únicos), portanto seu tratamento deve se dar sobre as investigações das reais causas da enfermidade considerando-o como um todo e não apenas em partes, como ainda se persiste o modelo cartesiano.

Embora não descartemos os métodos da medicina moderna, sugerimos as terapias holísticas combinadas ao tratamento para resultados mais eficazes.