Às vezes gosto de observar a mosca no seu mundinho calmo e sereno. Olho aquele ser pequenino que não se afeta com absolutamente nada. Pode acontecer terremoto, enchente, briga, mas ela continua com a sua irritante serenidade de sempre.
Sim. Ela é irritante, mas, como eu disse, gosto de observá-la. Ela é empenhada e obstinada. Vem, como se não quisesse nada, rodeia a gente sem cerimônia, senta na perna, no braço, na cabeça. Enfim, estuda toda anatomia de um corpo. Mesmo sendo enxotada, continua medindo, sentindo o terreno onde pisa, afagando o seu objeto de estudo.
É um afagar que atormenta, porque ela é um ser nojento: lambe a ferida, se alimenta do lixo, do podre e, vem, depois, lamber minha comida, com a mesma calmaria de antes. Desse jeito, haja paciência!
O pior é que ela percebe que é detestada e insiste em me tirar do sério: esfrega maliciosamente as duas patinhas, mira o alvo - que sou eu - levanta as asinhas, como se fosse voar, dá um saltinho e volta para o mesmo lugar; ou, então, me engana se afastando por alguns segundos, me fazendo acreditar que foi embora. Depois volta, ora ao mesmo ponto onde estava, o que incomoda, coça, chateia de verdade; ora vai para outro ponto, me fazendo novamente pensar que acabou. Algumas vezes, a gente nem percebe que ela está ali há horas. Com isso, ela nos desafia para a briga. Aceito. Mas, quem disse que ela foge das chineladas? Sai voando e volta. Para na minha frente se equilibrando no ar, como beija-flor beijando a flor, dando às vezes a impressão de estar com a linguinha para fora: “Ih! Você não me pega!”. Imagino até suas mãozinhas nas bochechas – nem sei se mosca tem bochechas, nem quero saber -, mas só ouço sua voz zumbida, fazendo zunzum, ou zummmmmm, tirando fininho dos meus ouvidos.
Quando volta, tento novamente bater nela, matar, ou ao menos expulsá-la da minha presença, mas ela “nem te ligo”. Segue com sua vidinha, curta e despreocupada.
E quando elas fazem de mim o seu leito de amor? Que horror! Aí que eu fico na dúvida se ela não está nem aí pro mundo ou se é debochada mesmo.
Há certos momentos em que vou bem devagar para apanhá-la de surpresa, mas, com certeza, ela é esperta e mais, bem mais, ágil que eu. Ainda tem a vantagem de não usar óculos. Como vou vencê-la nessa luta ridícula, se eu tenho apenas dois olhos, e ainda por cima dependendo de óculos, enquanto ela é pluriocular e não precisa desses artifícios?
No final, lanço mão do aerossol. Ela dá uma parada, respira fundo, dá uma tossidinha, prende a respiração e depois desce ao chão em movimentos circulares, ainda bate as asas tentando se segurar a uma invisível linha suspensa no ar, lutando para não cair. Agora eu quem rio dela: “parece uma equilibrista descendo charmosamente da corda bamba”. Apenas até certo ponto, porque a partir daí não tem mais jeito: a certa altura despenca pesadamente sendo vencida pela lei da gravidade.
O interessante é que quando volto aos meus afazeres, a paz demora pouco. Não tarda muito a aparecer outra MOSCA.
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