quarta-feira, 14 de junho de 2023
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
O que aparece precisa ser curado I
Engana-se quem pensa que autoconhecimento é uma coisa maravilhosa que vai te libertar de todos os seus problemas e que se alcançará de imediato um pleno estágio de desenvolvimento pessoal. Não é bem assim. Conhecer-se a si mesmo causa dores inimagináveis, passamos a ver coisas em nós que não víamos antes e que não tínhamos ideia de que aquilo estava lá. Tomamos consciência de que as nossas reações, nossos pensamentos, comportamentos são sempre, sempre com base no que está escondido dentro de nós. Não apenas estudamos isso e sabemos dessas coisas com o nosso intelecto, mas vivemos isso na nossa carne. Passamos a vivenciar isso. E é por isso que dói.
O autoconhecimento abre feridas que supúnhamos cicatrizadas, ou que sequer tínhamos noção de que elas existiam. Passamos a perceber que o que nos afeta precisa ser curado. Percebemos que o que há em nós não é lindo, que o que as pessoas admiram em nós foi construído com base no que os outros pensam de nós, com base no que é aceito ou não nas nossas relações pessoais e sociais. Mas lá no fundo não é nada daquilo.
Quando optamos pelo autoconhecimento, entramos em crise, os conflitos são intensos e muitas vezes respingam em quem está por perto. A parte boa disso é que não dá pra parar; e a parte ruim disso é que não dá pra parar. No fim, desabrocharemos como uma linda borboleta que sai do casulo. Mas, até isso acontecer, notamos que a casca do casulo é dura além do que pensávamos. É claro que essa dureza tem a ver com o quanto de "coisas" escondidas está em nós. E isso tem a ver com vidas e vidas passadas, com o quanto tivemos que reprimir dos nossos desejos e instintos.
O que acontece quando decidimos seguir pelo caminho do autoconhecimento e do desenvolvimento pessoal é que tudo o que se foi reprimido, volta, começa a se dissolver, e para se dissolver e desaparecer por completo, abrindo um pouquinho da "casca do casulo", traz à luz as feridas que um dia (nessa vida ou em outras) recalcamos, negamos, e que não cicatrizou, apenas está lá adormecido.
Por essa razão é que reagimos a situações que não deveriam nos incomodar, fazendo jus à frase: "o que aparece precisa ser curado". Uma pessoa pega seu lugar na fila, logo sobe um calorão no seu rosto, isto é uma reação que significa que em você está a ideia de que você foi passado para trás. Logo, perder o lugar na fila funciona como um gatilho que desperta o que está oculto no seu íntimo, de que um dia você foi passado para trás, mas você recalcou esse sentimento. Então sempre que uma situação semelhante acontecer, você terá a mesma reação de raiva e de indignação. Sempre até que isso seja curado.
Portanto, tudo o que está escondido em nós nos causa sofrimento, e o caminho para purificar a nossa mente das reações que não deveríamos ter é o autoconhecimento. Esse é o caminho. Entretanto, nos conhecer também causa sofrimento.
Além disso, iniciar um caminho de autoconhecimento desencadeia uma série de acontecimentos não desejáveis e, se não ficarmos alertas, eles causarão mais e mais e mais reações, gerando mais e mais e mais sofrimento. A esses acontecimentos indesejáveis damos o nome de catarse.
A catarse virá para "limpar" a nossa mente, nos limpar de todas as feridas que nos causam dor. A catarse coloca luz nas nossas sombras (sombras são tudo o que um dia, nessa vida ou em outras, recalcamos). O caminho do autoconhecimento nos traz catarses dolorosas, porém necessárias para que o casulo se rompa.
Entretanto, as catarses têm um modo muito peculiar de trabalhar. Elas são os acontecimentos indesejáveis que atraímos para as nossas vidas. (entenda como a Lei da Atração). Perder o lugar na fila não foi um evento casual e sem propósito. A pessoa em questão atraiu esse acontecimento com base no que ela tem de conteúdos recalcados no seu íntimo.
Podemos pensar que esses acontecimentos estão presentes o tempo todo na vida de qualquer pessoa, que não é uma novidade e nem é nada demais, e que, portanto, catarse não existe ou que existe o tempo todo e isso é banal. Isso de certo modo não deixa de ser verdade. No entanto, quando seguimos por um caminho de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal, espiritual, ou quando estamos evoluindo, os acontecimentos indesejáveis vêm com muito mais frequência. Isso porque a catarse vem para limpar, para curar o que precisa ser curado. Então o Universo se encarrega de trazer à luz tudo o que precisa ser curado.
Mais uma vez: "tudo o que aparece precisa ser curado".
Catarse, então, é um processo de cura, que só vai acontecer quando decidimos nos curar. Por essa razão é que o autoconhecimento é tão doloroso, porque ele é o caminho. A catarse funciona como uma faxina em que toda a sujeira aparece para ser limpa. O autoconhecimento nos liberta, nos transforma, quebra nossos casulos para que viremos uma bela borboleta, mas isso não acontece sem as catarses.
O caminho é de dor, as pessoas das suas relações pessoais não serão muitas vezes capazes de compreender, é um caminho solitário, estaremos sozinhos, por mais que estejamos unidos em grupos que compartilham dos mesmos ideais que os nossos, ainda assim estaremos sozinhos. Vamos querer desistir, mas como eu disse não dá pra parar. Depois que iniciamos a caminhada, nossas passadas serão sempre para a frente. A boa notícia é que existem pontes e atalhos.
Continua...
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
E os outros são só os outros
Quando pensar em fechar os olhos na caminhada, lembre-se de quanta coisa linda há lá fora. Quando a janela estiver fechada, abra-a e, se possível, saia da sua zona de conforto e experimente a vida de verdade, sem medo. O que os outros dizem são só convenções ditadas e aprendidas pelas tradições. Viver é arriscado, então por que viver na mediocridade apenas seguindo o fluxo? Abra as janelas, as portas e saia das paredes que o cercam. Lembre-se de que a casa permanecerá lá e as portas sempre estarão abertas. Você tem para onde voltar. Vivamos hoje, porque o amanhã a Deus pertence. Sim, devemos agir com responsabilidade, mas que esta não nos impeça de viver a verdadeira vida de felicidade autêntica. Amor para a vida...
segunda-feira, 6 de janeiro de 2020
Por que a lei da redução da maioridade penal não é a solução
No site do Conselho Federal de Psicologia (CFP) há vários links que
remetem a artigos e documentos que falam sobre a redução da maioridade penal,
em especial sobre os motivos pelos quais o próprio Conselho é contra a
aprovação da lei que reduz para dezesseis anos a idade penal, defendendo a
ideia de que o adolescente nesta idade já pode ser “castigado” por crimes cometidos. Os argumentos que o CFP dá nos fazem concluir que a
aprovação dessa lei seria desnecessária, inclusive pelo fato de o adolescente
já ser responsabilizado por suas infrações a partir dos doze anos de idade aqui
no Brasil. Outro argumento é que a aprovação dessa lei iria contra a própria
constituição brasileira.
A sociedade costuma defender a ideia de que os menores
são culpados pela maioria dos crimes praticados no Brasil em função de serem
utilizados pelos traficantes para praticá-los, pois, se pegos, não seriam punidos. Coloca-se a culpa no
adolescente, mas esquece-se de que a criminalidade e a violência estão
associadas a causas como: desigualdade e exclusão sociais, impunidade (não se
cumpre as leis já existentes), falha na educação, tanto a familiar quanto a
escolar, individualismo, consumismo. Ou seja, a culpa não pode ser do
adolescente apenas, sendo que a própria sociedade é falha tanto no que diz
respeito a fechar os olhos para os problemas de uma cultura individualista de
consumo em que ela própria fortalece, ficando ainda mais acentuada a diferença
entre as classes que não pratica a própria educação de valores éticos
A mídia apela para as
emoções e o espírito de indignação ao trazer histórias de crimes bárbaros
praticados pelos adolescentes, levando a população a colocar o adolescente como
um “monstro” que merece ser tratado como monstro, mas esquece de que a mídia
quer vender. A sociedade quer show e
o que acontece é que a mídia “sataniza o adolescente”. Há um apelo no sentido
de fazer a população pensar que um pai de família, um homem de bem e
trabalhador não merece ser vítima de um “marginal”. Sim, concordamos com isso.
Mas ninguém pára para pensar que o adolescente também é vítima de um
sistema e “se os adolescentes são monstros, nós [a sociedade] é que criamos
esses monstros” (frase dita pelo promotor de justiça Wilson Tafner em um vídeo
postado também no site do CFP), pois
ao negar tudo o que uma criança precisa para se desenvolver com saúde física e
mental, ao negligenciar a criança e o adolescente deixando-lhe à mercê de
qualquer destino e vulnerável a qualquer tipo de acontecimento, estamos criando
esses “monstros” que a sociedade tanto ataca.
Leis já existem, o que
falta é o cumprimento delas, pois o adolescente, como já foi dito, é
responsabilizado pelos seus atos a partir de 12 anos de idade. Além disso, se
as leis forem mais “pesadas” e rigorosas, fica-se a questão: será que o adolescente
negro, marginalizado, morador de favelas e de classe social menos favorecida
não seriam mais penalizados do que já são em função dos meninos em outras
condições?
“Adolescência é uma fase
de conflitos que geram insegurança. Tratá-los como estorvos só agrava essa fase
que por si só já é dolorosa”, é o que diz um manifesto, no CFP. Adolescência é uma fase
de conflitos, fase de descobertas do até então desconhecido, a mente de um
adolescente pode parecer bem desenvolvida para assuntos como sexo, por exemplo,
mas, na verdade, o que ele apresenta é só aparência, porque todos os conflitos
pelos quais ele passa nessa fase são permeados pela insegurança, por não saber
se será aceito. Dá para imaginar como é doloroso ter que passar por essa
fase sozinho, já que muitas vezes a própria família não pode ser fonte de
segurança para o adolescente. “fazer besteira” na vida todos nós um dia já
fizemos, em maior ou menor grau, o que há de especial na besteira que eu faço
em relação à besteira que o outro faz? Há um dito religioso de que para Deus
não há "pecadinho ou pecadão", o que existe é pecado; então, por que o meu pecado
seria considerado menor que de um assassino, por exemplo? Esse pensamento não
justifica um crime, mas tira a sociedade da posição de “juíza” do adolescente
em conflito com a lei.
Um dos maiores enganos
que a sociedade comete é achar que por medo da punição, o adolescente não comete crimes. Se o adolescente tem uma baixa
autoestima, se pra ele, apesar da idade, não existe mais por que viver, não há
nada que o faça sentir esperanças, sem nenhuma perspectiva, sem nada a perder,
não há o que temer. Em uma vida em que já se nasceu condenado não se temerá nem
a morte. Desse modo, o adolescente vai sim praticar crimes, até porque não há
quem o oriente, e ele fica, como já dito, à mercê de qualquer escolha e
vulnerável a qualquer pessoa com má-fé levá-lo a praticar atos incorretos.
Não há castigo que
eduque. A criança e o adolescente precisam de quem os oriente. Nas prisões não
há orientação, há castigo e punição, e o que se consegue com isso é a
alimentação do ódio e da violência. No livro Por que afinal matamos?, que é uma tese de Francisco Ramos de
Farias, há entrevistas com detentos e uma frase de um deles chama a atenção:
“aqui quem não sabe, aprende”. O detento quis dizer que na prisão, aprende-se a
cozinhar, a lavar. Isso nos leva a pensar: será? Será que o sistema carcerário
que vemos na televisão e nos jornais ensinam essas coisas? O que nos leva a
concluir, olhando para o sistema carcerário brasileiro é que não. Até pode ser
que se aprenda essas coisas, mas aprende-se também a se aperfeiçoar no crime. E
o adolescente que estiver em contato tão próximo com detentos adultos, estando
ele na fase dos conflitos de toda espécie, emocionais e de identidade, serão
alvos fáceis de bandidos experientes.
Como sociedade, estamos
deixando a desejar em relação à nossa responsabilidade de educar esses jovens,
pois, como sociedade, também temos a nossa parcela de culpa. Ao
passar a disseminar ideias de valores éticos e morais que muitas vezes estão
distorcidos e que nem nos damos conta de que estão em desacordo com princípios
que queremos que o outro tenha. Ao assistirmos um jovem
se enveredar pelos caminhos do crime, podemos sentir em nós o fracasso enquanto
sociedade, enquanto ser humano.
De tudo o que foi dito,
ainda vale ressaltar que a sociedade pede justiça, mas esquece-se de que o
adolescente também é uma vítima, e vítima da própria sociedade. Uma frase que
chama a atenção no manifesto da Unicef, no CFP, e que nos traz à reflexão é: “Apesar de
difícil, vale a pena o exercício de tentar pensar no lado do criminoso”. Ou
seja, dá para pensar, de tudo o que foi dito que nós criamos os “monstros” ao
negligenciar, ao satanizar, ao marginalizar, e pedimos justiça quando acontece
de uma criança ou adolescente cometer um crime. Queremos linchá-lo e vemos isso
acontecer com certa frequência. É a “justiça feita com as próprias mãos”. Que
sociedade queremos se o ódio é cultuado por nós com tanta intensidade? Por que
“condenar quem já nasceu condenado?”
Concluímos, então, que
não vale a pena a aprovação dessa lei, pois já temos documentos que punem os
atos criminosos dos adolescentes de acordo com a fase de vida deles e
respeitando-lhes seu desenvolvimento e sua condição de cidadão que é como
qualquer outro pai de "família de bem". A lei já existe, só falta que seja
cumprida. Basta que reflitamos antes de defender que o ódio seja ainda mais
arraigado nos pensamentos humanos, pois se queremos uma sociedade melhor, pensemos que a
punição nunca educa, só faz o ódio aumentar.
Texto com base no Manifesto
Não-Violência que se encontra no site
www.crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/idade_penal/unicef_id_penal_nov2007_completo.pdf
sábado, 4 de janeiro de 2020
Se for pra chorar, chore tudo de vez; se for pra sofrer, sofra tudo de vez, porque quando acabar, acaba tudo de vez, e expurga de vez. O que não nos faz bem seja arrancado da raiz, e de uma vez só. Como um espinho no pé, se puxar de vez a gente nem sente.
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