Era uma tarde fria. Nas ruas, os poucos passantes que ainda se via
estavam apressados para chegarem aos seus lares depois de um dia de trabalho.
No céu, as nuvens se tornavam mais baixas a cada instante e o sol sumia
timidamente no horizonte avermelhado misturando-se ao azul sombrio do oceano.
Sentada no cais, uma menina: em média onze anos, magra, pequena, nada de
exuberante para quem a visse de longe. Olhava o mar e sorria vagamente; porém,
tinha um sorriso significativo. Seu olhar estava distante, mas havia nele um
brilho de felicidade. Às vezes respirava fundo, tragando com prazer o vento
frio e sublime que também lhe entrelaçava os cabelos; fechava os olhos jogando
a cabeça para trás, fazendo com que seu corpo ficasse ainda mais leve, deixando
clara a impressão de que sonhava um sonho tão maravilhoso, que um mortal não poderia
supor.
Estava distraída, como se sua alma não estivesse ali. Apenas sorria o
sorriso de uma musa que inspira o poeta e o pintor. Mas, naquele momento, era
ela quem era inspirada pelo vento que soprava do mar. Não a incomodavam o frio
e o estado de quase deserto em que se encontrava a cidade. O que ela queria,
era sentir a magia desta estação que encanta e que leva o homem, tão dono de
si, forte, altivo e auto-suficiente a refletir sobre sua frágil condição.
É! Realmente ela não estava ali.
Seus pensamentos voavam, iam
longe, ou talvez nem pensasse em nada. Apenas sofria a dor prazerosa de ser tão
pequena diante de um mar de outono.
Enfim, veio a chuva, mas ela não
desanimou. Agora bailava descalça na areia molhada, com os braços abertos,
rosto para cima, sentindo os suaves pingos que caíam incertos.
Alguém se aproximou com repreensão lhe trazendo de volta à realidade.
Ela respondeu com delicadeza:
- Há quanto tempo você não olha uma estrela ou sente o vento em seu rosto?
Como não obteve resposta, ela
continuou:
- Aproveite que estamos no outono e,
diante desse mar, perceba o quanto somos passageiros desta vida tão breve.
Deixe seus “grandes” problemas para trás e feche os olhos. Por que você não
pode voltar a ter onze anos apenas por um instante?
A pessoa refletiu e meneou a cabeça
preocupada, olhando para dentro de si.
Ela continuou:
- Não podemos deixar para depois. O que a natureza está nos dando é
agora! Depois será inverno e ninguém sabe se irá sobreviver.
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