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terça-feira, 10 de setembro de 2019

O normal deixou de ser normal

Prefiro o sol me batendo na cara
minha pele quente
meus pés pisando a areia
o vento desgrenhando meus cabelos
sentir o cheiro do mar
dilatar meus pulmões
e meus olhos contemplarem o horizonte,
que o tédio de uma vida "normal".

A normalidade me cansa!

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Meu sonho mais urgente:

Uma necessidade que pulsa em mim com tanta força que nem sei.

Eu, a Mãe Natureza,
Minhas músicas preferidas,
Meus livros...

... E só. Por hoje!

quarta-feira, 15 de maio de 2019

O adeus acontece aos poucos

A vida só foi levando a gente pra lados diferentes.
No início, eu fui sentindo a dor...
Tentei te alertar,
Mas era a chata.
"Kit reclamação".
Chorei, 
Me senti sozinha
Tinha você um dia por semana.
E a gente nem conversava.
Rotina mata muitas coisas,
Mas mata também o amor.
Fui levando...
Fui tentando te alertar.
"aff, mas agora é toda semana????"
Me calei.
Até que um dia acordei 
e não senti mais a sua falta.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

Assim

Sou assim
Meio bicho do mato
Macambúzia
Meio bicho das profundezas do mar
Meio ostra.

Sou quem se estranha
Com a qualidade dos outros
Mas, se encontra
Nos seus próprios defeitos.
E gosta.

Sou assim
Meio monótona
Meio sem tom, sem cor, sem sal.
Assim, meio chata.


quarta-feira, 13 de março de 2019

Urbes

 Ah! Esses pobres que vão chegando e ficando... Se estabelecendo, poluindo a paisagem de pobres.
Aquela paisagem que era verde, verdinha, colorida, arejada. Agora é marrom, suja, fétida... Asfaltada. Pobre.
As cidades estão cheias de ricos promitentes. Pobres promissores. Ricos decadentes e pobres declinantes.
Em toda parte, há pobres. No meio da paisagem verde, verdinha, pobres. O marrom. Os pobres.
No meio dos ricos, os ricos pobres e os pobres pobres.
Os pobres cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais pobres.
- E quem controla tudo isso?
- Os pobres ricos.


A Mosca

Às vezes gosto de observar a mosca no seu mundinho calmo e sereno. Olho aquele ser pequenino que não se afeta com absolutamente nada. Pode acontecer terremoto, enchente, briga, mas ela continua com a sua irritante serenidade de sempre.
Sim. Ela é irritante, mas, como eu disse, gosto de observá-la. Ela é empenhada e obstinada. Vem, como se não quisesse nada, rodeia a gente sem cerimônia, senta na perna, no braço, na cabeça. Enfim, estuda toda anatomia de um corpo. Mesmo sendo enxotada, continua medindo, sentindo o terreno onde pisa, afagando o seu objeto de estudo.
É um afagar que atormenta, porque ela é um ser nojento: lambe a ferida, se alimenta do lixo, do podre e, vem, depois, lamber minha comida, com a mesma calmaria de antes. Desse jeito, haja paciência!
O pior é que ela percebe que é detestada e insiste em me tirar do sério: esfrega maliciosamente as duas patinhas, mira o alvo - que sou eu - levanta as asinhas, como se fosse voar, dá um saltinho e volta para o mesmo lugar; ou, então, me engana se afastando por alguns segundos, me fazendo acreditar que foi embora. Depois volta, ora ao mesmo ponto onde estava, o que incomoda, coça, chateia de verdade; ora vai para outro ponto, me fazendo novamente pensar que acabou. Algumas vezes, a gente nem percebe que ela está ali há horas. Com isso, ela nos desafia para a briga. Aceito. Mas, quem disse que ela foge das chineladas? Sai voando e volta. Para na minha frente se equilibrando no ar, como beija-flor beijando a flor, dando às vezes a impressão de estar com a linguinha para fora: “Ih! Você não me pega!”. Imagino até suas mãozinhas nas bochechas – nem sei se mosca tem bochechas, nem quero saber -, mas só ouço sua voz zumbida, fazendo zunzum, ou zummmmmm, tirando fininho dos meus ouvidos.
Quando volta, tento novamente bater nela, matar, ou ao menos expulsá-la da minha presença, mas ela “nem te ligo”. Segue com sua vidinha, curta e despreocupada.
E quando elas fazem de mim o seu leito de amor? Que horror! Aí que eu fico na dúvida se ela não está nem aí pro mundo ou se é debochada mesmo.
Há certos momentos em que vou bem devagar para apanhá-la de surpresa, mas, com certeza, ela é esperta e mais, bem mais, ágil que eu. Ainda tem a vantagem de não usar óculos. Como vou vencê-la nessa luta ridícula, se eu tenho apenas dois olhos, e ainda por cima dependendo de óculos, enquanto ela é pluriocular e não precisa desses artifícios?
No final, lanço mão do aerossol. Ela dá uma parada, respira fundo, dá uma tossidinha, prende a respiração e depois desce ao chão em movimentos circulares, ainda bate as asas tentando se segurar a uma invisível linha suspensa no ar, lutando para não cair. Agora eu quem rio dela: “parece uma equilibrista descendo charmosamente da corda bamba”. Apenas até certo ponto, porque a partir daí não tem mais jeito: a certa altura despenca pesadamente sendo vencida pela lei da gravidade.
O interessante é que quando volto aos meus afazeres, a paz demora pouco. Não tarda muito a aparecer outra MOSCA.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O Vaga-lume


Boa. Muito boa pergunta, para a qual procuro a resposta em tantas vãs definições e encontro apenas mais questões, mais e mais dúvidas vêm e bailam como vaga-lumezinhos faiscantes me provocando: “e aí, sábia mulher, diga, vá, encontre por si só o conceito para uma crônica!”
É aí que me vejo diante de um espelho enorme, do meu tamanho. Observo a minha figura tão desolada, vulnerável e derrotada. Em poucos segundos percebo que o vaga-lume é decididamente mais forte que eu.
Mas não me faço de vencida não! Travo uma luta com ele. Sei que no final ele vai ganhar, mas eu preciso defender a minha honra. É uma luta pessoal, ele me desafiou e eu preciso me manter de pé, não posso passar o troféu da sapiência tão facilmente.
Lápis, papel. Lá vai! Vou, e vou muito bem... Leio, releio. Borracha! Lápis, papel... Borracha!
Luta difícil!
Desisto da borracha. Não é suficiente. Amasso a folha. Outra, branca, limpinha. Vou bem, ninguém me segura. Avanço numa toada só até o meio da folha. Paro. Olho mais de perto, desconfiada. Borracha!
Começo, recomeço. Desisto!
O vaga-lume ri, zomba de mim, pisca me provocando, me desafiando a continuar, a dar cabo do que foi começado. Uso artifícios para vencê-lo.
“Não, mulher! Por si só.”
Desisto! Não posso defini-la. Ele é mais astuto, mais sábio que eu.
Nesse momento choro, porque fui vencida por um vaga-lume tão menor, no entanto, mais cheio de Luz que eu. Até as folhas amassadas no chão parecem rir de mim. Sento-me, cansada da batalha, tentando achar ânimo para olhar novamente nos olhos daquela imagem no espelho e, por um instante ouço uma música. Ao longe e tão timidamente, uma voz:
“Pobre criança da arte da linguagem, deixe as palavras dançarem, voarem à solta, virem tranquilamente como barcos trazidos pela calma brisa da mansa madrugada. Solte a mão, deixe o corpo leve, a cabeça leve, dance junto, sinta a música e dance junto. Liberte-se das correntes e dos cadeados, quebre-os, mas sem esquecer-se da dança. Enquanto as palavras estiverem flutuando no ar, pegue-as suavemente, arrume-as uma ao lado da outra, como em uma quadrilha bem organizada, vista-as com roupas coloridas, porém discretas, bem combinadas, podendo até ter aqui ou ali um pouco de rasgo; arrume-as cuidadosamente para não se estranharem; depois de arrumadas, música animada, dance mais um pouco e, quando elas estiverem se excedendo, coloque um ponto final.”
Abri os olhos, como se estivesse acordando de um sonho revelador e me dei conta de que era o Vaga-lume mais uma vez zombando de mim.