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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O desafio da ressocialização


Socializar, segundo Houaiss 2011, significa “[...] tornar-(se) sociável [...], adaptar-(se) [p.ex., uma criança, um delinquente] à convivência normal com outras pessoas [...]”. Por ter esse significado, pressupomos que a pessoa deva se adequar às regras que a sociedade define e padroniza como aceitáveis, de acordo com suas próprias normas. Ressocializar, então, significa fazer com que a pessoa que, em algum momento de sua vida deixou de estar apto para a convivência social, volte a ser sociável.
A questão implícita aqui é pensarmos de um modo mais abrangente sobre o que é “normal”, ditado por quem e para quem; o que é também ser delinquente. Ou seja, a quem este (re) socializar serve. Pois, se no contexto das leis brasileiras, é crime matar, não deixa de ser crime roubar, furtar, desviar verbas que deveriam ser direcionadas ao social. Portanto, uma questão ainda maior deixa de ser o crime em si, mas a pessoa que o pratica. A lei é igual para todos, mas é bem verdade que nem todos são julgados e condenados da mesma forma.
Se o indivíduo é considerado, de acordo com a lei, inapto ao convívio social e precisa ter a sua liberdade tirada para que volte a se socializar depois, aprendendo dentro das prisões que não deve cometer crimes, sob risco de punição, o que está sendo feito para que ele seja ressocializado? Quando analisamos a frese “o crime não compensa”, estamos passando batidos por um grave problema que ela cria, porque não é apenas ser privado de liberdade, mas partimos da lógica de que estar nas prisões precisa ser doloroso em todos os sentidos: tratamento degradante e desumano, violação da integridade física, alimentação e atendimento médico precário, ambiente insalubre, superlotação, e todas as formas de viver que afetam o emocional e a saúde mental do preso, em que tudo isso é ratificado pelo senso comum de que “bandido com é bandido morto”, “vagabundo tem que morrer” e “todo castigo pra vagabundo é pouco”.
Entretanto, se esquece que o apenado um dia volta para a sociedade, e esta sociedade somos todos nós, é também da nossa responsabilidade a condição do apenado e o suporte que ele precisa para voltar às ruas. Nem precisamos falar das leis que o amparam, mas considerar que o apenado é um de nós, que é também parte da sociedade a qual pertencemos. Ao violar as leis contra o preso, o Estado apenas reforça a criminalidade, pois ninguém que é tratado de forma violenta sai da situação achando que o mundo é lindo e que o ser humano é bom, ainda que tenha ele próprio algum dia praticado violência contra alguém. Não precisamos de leis para nos dizer isso, pensar dessa forma de que “vagabundo” tem que apanhar, sofrer, pagar pelo crime que cometeu é dar um tiro no nosso pé, pois nada se aprende em estar nas prisões apenas para ser punido.
A prisão deve ser um lugar de aprendizado, de gerar oportunidades para que o apenado se reintegre, mas de forma diferente, tendo na própria sociedade acolhimento e condições para fazer de outro modo a sua vida, para si, sua família e para as pessoas a sua volta. Ressocializar é, portanto, voltar a se socializar de um modo que seja bom para ele e para a sociedade, buscando práticas que lhe deem suporte para isso, e não práticas que reforcem no apenado sentimento de ódio e revolta. Ele precisa sim ver que “o crime não compensa”, mas pelo viés da educação, das oportunidades de crescimento e trabalho dignos, não sob a lógica da violação de direitos, muitas vezes até incentivadas pelo senso comum, como vimos.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A angústia vem das escolhas

Ter uma autoconsciência é ter a capacidade de situar-se fora de si para se conhecer tanto quanto sujeito e objeto de suas experiências, vendo-se a si mesmo o homem que se vê no mundo sem um a priori, sem saber como agir, pensar e sentir. Este modo de estar no mundo faz com que o homem se sinta desamparado e indefeso, precisando de sentido para o que a princípio não há sentido. Este, aliás, só vem através das nossas construções culturais de valores, fruto das nossas interações. É um estar no mundo que se constrói a cada momento e nos coloca em posição de transição, um Ser sendo, fazendo e refazendo o seu caminho a cada experiência.
Nessa posição, o homem pode sair de si e transcender o presente, ressignificar o passado e planejar o porvir. Com isso, ele acaba de descobrir que há muitos caminhos pelos quais ele pode seguir; entretanto, como tudo é transitório e esses caminhos não são garantia de que nenhuma de suas escolhas são serão positivas, isso gera angústia.
A angústia, portanto, é inerente ao existir humano, é ontológico. Nada é garantia de segurança, havendo um sentimento de que sua vida pode a qualquer momento ser destruída, ou que seu mundo, onde ele tem o sentimento de uma suposta segurança, pode ser transformado em nada. Assim, todas as questões afetam o indivíduo autoconsciente. As questões que surgem na vida geram angústia, que vêm dos valores, significados atribuídos pelo ser humano à própria existência.
Desse modo, há uma "porta aberta" para infinitas escolhas, nos trazendo reflexões como "para onde vamos?", "que garantias temos com essa ou aquela escolha?". Como tudo é transitório, somos compelidos a sair da zona de conforto, e isso acontece de instante a instante, às vezes em eventos que se dão de forma muito discreta.
As escolhas certas não existem, nunca há garantia de certo ou errado e não há como não escolher. A angústia vem da incerteza das escolhas e pela abertura de opções que se abrem a nós, fazendo de nós sujeitos fadados a escolher o tempo todo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

De duas coisas apenas que tenho certeza:

Nº 1: Não quero desperdiçar essa vida.

A vida é uma constante de mudanças. É tudo o que há de mais certo. Não quero morrer parada no mesmo lugar como uma árvore, como um poste. Estou es busca de mim mesma, e não é parada que vou conseguir me encontrar.
Não sei quando vou encarnar novamente e ter oportunidades de fazer tudo diferente, viver outras emoções ou ter a chance de viver novamente as experiências boas que já tive. Não sei quando terei novamente ter a chance de outros aprendizados.
Além disso, estou viva, e nada me impede de fazer diferente agora.
Se querem aceitar que a vida é minha e que as escolhas por elas são minhas, ótimo. Se não, só lamento. 
Não quero chegar aos 80 anos, olhar pra trás e me arrepender por coisas que não tentei. Meio clichê, mas nos arrependemos, não pelo que deu errado, mas pelo que deixamos de tentar.
As minhas escolhas são minhas, quer ser meu amigo, apenas entenda e respeite, assim como eu respeito as suas. Definitivamente, não quero morrer sem fazer coisas que meu coração pede. Não quero morrer sem alcançar o nível de evolução a que me propus quando me foi concedida a oportunidade de nascer, voltar aqui e fazer de novo. Estou aqui e isso é um presente, não quero desperdiçar a vida que eu tenho agora.

Nº 2: Para que eu cure o outro, eu mesma tenho que estar curada.

E a verdade é que não estou. Enquanto o que o outro disser, tiver ressonância em mim, não estou curada. Enquanto as atitudes de outras pessoas forem interpretadas por mim como ofensas e mágoas, é porque tenho muito o que curar.

Pessoas curadas apenas vivem suas vidas e deixam o outro viver, não "levam tudo para o pessoal". Todos nós carregamos dores e muitas vezes o que o outro faz ou diz tem a ver com ele apenas, não necessariamente conosco. Então, se cure no sentido de não se afetar com pequenas coisas que não têm a ver comigo. Se eu sou agredida, isso tem a ver com o agressor e não comigo. Se eu sou o agressor, isso  tem a ver comigo e não com quem eu agredi. Nós não somos o centro do Universo.

Meu pedido é que o Universo me ajude nessa caminhada, tenho certeza que enfrentarei oposições, muitas convicções contrárias, mas preciso ir. É um chamado da minha alma, não posso mais passar a vida fingindo que não estou escutando. Não quero mais perder tempo, que seja nessa vida!

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A vida é uma dança

Passamos a vida em busca de uma segurança que nos dê a sensação de certeza e estabilidade. Mesmo sabendo que este é um falso sentimento, nos apegamos ao conforto da ideia de que temos "relações estáveis", "empregos estáveis", amizades, o poupar hoje para ter uma "velhice estável", e vedamos os olhos para a realidade de que essa segurança pela qual procuramos e defendemos que a conquistamos, ela simplesmente não existe.
A única certeza que temos é que não há certezas, nem verdades, pois tudo o que há é a inconstância de todas as coisas. Perde-se a vida em busca de algo a que possamos nos ancorar e não percebemos as coisas que estamos perdendo pelo caminho.
Pensar nessa efemeridade pode nos causar angústia, pois isto nos leva a um outro patamar da questão, que é o fato de sermos até impulsionados a ter uma fé que na verdade não temos, pois buscamos a estabilidade pelos nossos méritos de casa própria, um salário, uma poupança, e não ter nada disso é desesperador. 
Tal angústia desespera porque fomos habituados que a segurança, a estabilidade e a certeza das coisas são possíveis. Mas, a vida é uma constante de incertezas. E isso pode ser muito ruim, mas também pode ser muito, e muito bom.
Imagina o quanto de aprendizados podemos ter através das mudanças da vida! Que grande dádiva é saber que justamente porque não existe estabilidade é que estamos mudando e tendo a chance de evoluir como seres de luz que somos! Como poderíamos nos tornar pessoas melhores, bem como todos os seres, se estivéssemos parados em um lugar de certezas e verdades? Tudo seria inquestionável. Seria um tédio saber que morreríamos exatamente como nascemos. Não existiria vida.
A beleza está justamente em sabermos que a vida pode ser muito dura, e às vezes é. Mas também pode ser tão maravilhosamente encantadora e surpreendente.
E o mais lindo de tudo isso, é sabermos que a vida pode ser exatamente do jeito que a gente quiser e deixar ser, justamente porque não é estável.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

O normal deixou de ser normal

Prefiro o sol me batendo na cara
minha pele quente
meus pés pisando a areia
o vento desgrenhando meus cabelos
sentir o cheiro do mar
dilatar meus pulmões
e meus olhos contemplarem o horizonte,
que o tédio de uma vida "normal".

A normalidade me cansa!