Socializar, segundo Houaiss
2011, significa “[...] tornar-(se) sociável [...], adaptar-(se) [p.ex., uma
criança, um delinquente] à convivência normal com outras pessoas [...]”. Por
ter esse significado, pressupomos que a pessoa deva se adequar às regras que a
sociedade define e padroniza como aceitáveis, de acordo com suas próprias
normas. Ressocializar, então, significa fazer com que a pessoa que, em algum
momento de sua vida deixou de estar apto para a convivência social, volte a ser
sociável.
A questão implícita aqui é
pensarmos de um modo mais abrangente sobre o que é “normal”, ditado por quem e
para quem; o que é também ser delinquente. Ou seja, a quem este (re) socializar
serve. Pois, se no contexto das leis brasileiras, é crime matar, não deixa de
ser crime roubar, furtar, desviar verbas que deveriam ser direcionadas ao
social. Portanto, uma questão ainda maior deixa de ser o crime em si, mas a
pessoa que o pratica. A lei é igual para todos, mas é bem verdade que nem todos
são julgados e condenados da mesma forma.
Se o indivíduo é considerado, de
acordo com a lei, inapto ao convívio social e precisa ter a sua liberdade
tirada para que volte a se socializar depois, aprendendo dentro das prisões que
não deve cometer crimes, sob risco de punição, o que está sendo feito para que
ele seja ressocializado? Quando analisamos a frese “o crime não compensa”,
estamos passando batidos por um grave problema que ela cria, porque não é
apenas ser privado de liberdade, mas partimos da lógica de que estar nas
prisões precisa ser doloroso em todos os sentidos: tratamento degradante e desumano,
violação da integridade física, alimentação e atendimento médico precário,
ambiente insalubre, superlotação, e todas as formas de viver que afetam o
emocional e a saúde mental do preso, em que tudo isso é ratificado pelo senso
comum de que “bandido com é bandido morto”, “vagabundo tem que morrer” e “todo
castigo pra vagabundo é pouco”.
Entretanto, se esquece que o
apenado um dia volta para a sociedade, e esta sociedade somos todos nós, é
também da nossa responsabilidade a condição do apenado e o suporte que ele
precisa para voltar às ruas. Nem precisamos falar das leis que o amparam, mas
considerar que o apenado é um de nós, que é também parte da sociedade a qual
pertencemos. Ao violar as leis contra o preso, o Estado apenas reforça a
criminalidade, pois ninguém que é tratado de forma violenta sai da situação
achando que o mundo é lindo e que o ser humano é bom, ainda que tenha ele próprio
algum dia praticado violência contra alguém. Não precisamos de leis para nos
dizer isso, pensar dessa forma de que “vagabundo” tem que apanhar, sofrer,
pagar pelo crime que cometeu é dar um tiro no nosso pé, pois nada se aprende em
estar nas prisões apenas para ser punido.
A prisão deve ser um lugar de
aprendizado, de gerar oportunidades para que o apenado se reintegre, mas de
forma diferente, tendo na própria sociedade acolhimento e condições para fazer
de outro modo a sua vida, para si, sua família e para as pessoas a sua volta. Ressocializar
é, portanto, voltar a se socializar de um modo que seja bom para ele e para a
sociedade, buscando práticas que lhe deem suporte para isso, e não práticas que
reforcem no apenado sentimento de ódio e revolta. Ele precisa sim ver que “o
crime não compensa”, mas pelo viés da educação, das oportunidades de
crescimento e trabalho dignos, não sob a lógica da violação de direitos, muitas
vezes até incentivadas pelo senso comum, como vimos.