Mas o que é
mesmo o amor?
Qualquer um
pode definir o amor com palavras. Alguns, para responder a tal pergunta,
citariam a Bíblia, II Coríntios: 13; dariam o exemplo de Jesus, que ofereceu
sua vida por nós pecadores, não tendo ele pecados - o Ágape; ou da mãe que se
abnega, que tira o alimento de sua própria boca para dá-lo ao filho. Mas há
quem realmente saiba o que é o amor? Há quem viva o amor e se dê por amor?
Sim. Há quem
se dê por amor – o Eros –, há o que se anula, o que doa praticando assim a
caridade, há o que perdoa e até esquece, há o que se mete no campo para fazer
missões, levar a Palavra e as boas novas para os que já não têm nem mais a
esperança, o que divide o pão, na fé de que amanhã não lhe faltará - o Fraternal.
Mas há quem saiba realmente o que é o amor?
Tenho
observado as pessoas que afirmam a outras o “eu te amo”. Como podem ser tão
vazias de sentimento? Como podem não refletirem no peso e na responsabilidade de
tais palavras?
Quando alguém
diz “eu te amo” deve estar consciente de fato do que seja o amor. Não apenas
isso, mas deve estar apto para amar. Como pode alguém ter a capacidade de amar,
se não é capaz de refletir sobre o amor? Se não for capaz de se colocar no
lugar do outro, do semelhante, do irmão e recuar e, em algumas, vezes até
perder, abrir mão, como pode dizer que ama? Se há desconfiança, não haverá
amor. Se há mentiras, ressalvas, insegurança, existe amor?
O amor que
conhecemos na nossa infinita superficialidade é apenas a desculpa que encontramos
para conseguir o que queremos: o bebê que sorri para a mãe porque já descobriu
que ganha afeto, alimento e, de quebra, ainda é chamado de “lindo”; a mãe que
dá tudo isso num misto de obrigação com a motivação da falsa crença de que é
amada por alguém - pelo bebezinho que um dia vai chamá-la de “mamã”, e do qual,
portanto, cuida, arruma, perfuma porque sabe que é ela quem receberá o elogio;
o homem que usa o amor para conseguir levar a mulher para o altar, porque sabe
que terá para sempre quem lave, passe, cozinhe e arrume; a moça que se casa
porque será uma senhora respeitável, casada, terá sua casa, lugar onde ela é a
dona; a criança que ajuda o pai porque receberá uns trocados etc, etc, etc.
Enfim, o amor
não existe!
O que existe é
a camuflagem do ódio. E não venha dizer que o ódio é o irmão do amor. Não. Não
há meio termo: quem ama não contabiliza o que se perde, pelo contrário, usufrui
as dádivas do amor; e quem usa o amor para conseguir algo em troca, na verdade
odeia do mais violento e cruel modo, justamente porque camufla. Porque ninguém
espera receber espinhos de quem se ouve amor.
Aquele que se
entrega na cama, ama ou estará apenas querendo satisfazer sua libido? O que
pratica a caridade e o que sabe perdoar não estaria tentando ganhar o reino dos
céus? O que dizer do missionário que se arrisca em terras estranhas? Ele quer
apenas compartilhar as boas novas da salvação ou pretende ganhar pontos com
Deus?
Eles não são
inocentes. Todos, com mais ou menos “violência”, “camuflagem”, estão sempre
querendo algo em troca. Não pode ser justo o ser humano usar o amor como moeda
de barganha. Não se demonstra amor dizendo a Deus: “Dê-me isto e eu amarei meu
semelhante como a mim mesmo”.
A meu ver,
isso não é certo. Mas o ser humano já está se habituando. Espero que não chegue
o dia em que dizer “eu te amo” seja tão banal a ponto de causar o mesmo efeito
de um “bom dia”. Porque na verdade ninguém realmente deseja que o ouvinte tenha
um dia bom, mas essa é só uma forma de cumprimento. Ninguém analisa que efeito
essa expressão possa causar no outro, apenas fala de forma muito, muito
automática. Mais uma vez sem consciência do que está dizendo. E o outro, por
sua vez, reage do mesmo modo.
Quando foi que
nós tivemos a hombridade de ceder, de calar, de baixar a cabeça e reconhecer
nosso próprio erro? Quando deixamos de comer porque já estamos alimentados e
doamos o alimento? Ou quando, ao menos lembramo-nos de que alguém no momento da
nossa refeição não tem o pão, a cama e o teto de cada dia?
Nós não
pensamos, não refletimos porque para nós é mais conveniente nos fecharmos em
nós mesmos. É mais fácil não lembrar, assim não sentimos culpa.
Como ter a
coragem de falar em amor? Como amar sem conhecer o amor?
Se não se pode
amar de verdade, numa total entrega de alma, não diga “eu te amo”. Ame
primeiro, verbalize depois. Verbalizar é importante, mas só quando o sentimento
é real. Tenha consciência do amor em cada momento, mesmo na fila do banco. O
amor não é uma poesia que foi cantada por um poeta apaixonado, uma música
nostálgica que ficou na história; o amor está aqui para ser sentido e, mais que
isso, compartilhado. Ame sem se preocupar em dizer apenas por dizer. Não o
usemos como moeda de troca. Não vendamos um sentimento. Seria uma violência
sutil, mas ainda assim uma agressão.
Que o amor não
seja um meio para mascarar quem realmente somos: egoístas. E que em nosso
egoísmo não sejamos cada vez mais violentos para com o nosso irmão. Se não
amamos por falta de capacidade e talento, não sejamos talentosos em enganar. Que
aprendamos a dar os nomes certos aos sentimentos e paremos de generalizar todos
os sentimentos em amor. Ódio é ódio, desejo é desejo, vaidade é vaidade, e amor
é amor. Mesmo vindo acompanhado de outros sentimentos como amizade,
cumplicidade, afinidade, afeto, o amor não pode ser reduzido a ser menos do que
é: simplesmente amor. O eu, o tu e o ele sem diferenciações.
Amor é muito
mais forte, é entrega total de forma segura, inocente, sem maldade, é abrir mão
pelo outro, é olhar nos olhos, é contar segredos sem imaginar se será
criticado, porque é também confiança. É sorrir mesmo quando é tempo de chorar,
pelo simples motivo de estar perto. É não competir, mas desejar como se
desejaria para si mesmo que a oportunidade seja de igual modo. É querer galgar
os degraus juntos, é sofrer quando o outro não chegou ao topo na mesma ocasião.
É dizer pausadamente e com todas as letras “EU TE AMO”. É dizer sabendo bem o
que e porque se diz. É sentir que o amor flui da alma para os olhos, é sentir a
verdade emanar de seu ser ao pronunciar estas palavras.
Se você não
pode ser assim, então ainda acha que o seu amor é amor?