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quarta-feira, 1 de maio de 2019

Amor? Mesmo?


Mas o que é mesmo o amor?
Qualquer um pode definir o amor com palavras. Alguns, para responder a tal pergunta, citariam a Bíblia, II Coríntios: 13; dariam o exemplo de Jesus, que ofereceu sua vida por nós pecadores, não tendo ele pecados - o Ágape; ou da mãe que se abnega, que tira o alimento de sua própria boca para dá-lo ao filho. Mas há quem realmente saiba o que é o amor? Há quem viva o amor e se dê por amor?
Sim. Há quem se dê por amor – o Eros –, há o que se anula, o que doa praticando assim a caridade, há o que perdoa e até esquece, há o que se mete no campo para fazer missões, levar a Palavra e as boas novas para os que já não têm nem mais a esperança, o que divide o pão, na fé de que amanhã não lhe faltará - o Fraternal. Mas há quem saiba realmente o que é o amor?
Tenho observado as pessoas que afirmam a outras o “eu te amo”. Como podem ser tão vazias de sentimento? Como podem não refletirem no peso e na responsabilidade de tais palavras?
Quando alguém diz “eu te amo” deve estar consciente de fato do que seja o amor. Não apenas isso, mas deve estar apto para amar. Como pode alguém ter a capacidade de amar, se não é capaz de refletir sobre o amor? Se não for capaz de se colocar no lugar do outro, do semelhante, do irmão e recuar e, em algumas, vezes até perder, abrir mão, como pode dizer que ama? Se há desconfiança, não haverá amor. Se há mentiras, ressalvas, insegurança, existe amor?
O amor que conhecemos na nossa infinita superficialidade é apenas a desculpa que encontramos para conseguir o que queremos: o bebê que sorri para a mãe porque já descobriu que ganha afeto, alimento e, de quebra, ainda é chamado de “lindo”; a mãe que dá tudo isso num misto de obrigação com a motivação da falsa crença de que é amada por alguém - pelo bebezinho que um dia vai chamá-la de “mamã”, e do qual, portanto, cuida, arruma, perfuma porque sabe que é ela quem receberá o elogio; o homem que usa o amor para conseguir levar a mulher para o altar, porque sabe que terá para sempre quem lave, passe, cozinhe e arrume; a moça que se casa porque será uma senhora respeitável, casada, terá sua casa, lugar onde ela é a dona; a criança que ajuda o pai porque receberá uns trocados etc, etc, etc.
Enfim, o amor não existe!
O que existe é a camuflagem do ódio. E não venha dizer que o ódio é o irmão do amor. Não. Não há meio termo: quem ama não contabiliza o que se perde, pelo contrário, usufrui as dádivas do amor; e quem usa o amor para conseguir algo em troca, na verdade odeia do mais violento e cruel modo, justamente porque camufla. Porque ninguém espera receber espinhos de quem se ouve amor.
Aquele que se entrega na cama, ama ou estará apenas querendo satisfazer sua libido? O que pratica a caridade e o que sabe perdoar não estaria tentando ganhar o reino dos céus? O que dizer do missionário que se arrisca em terras estranhas? Ele quer apenas compartilhar as boas novas da salvação ou pretende ganhar pontos com Deus?
Eles não são inocentes. Todos, com mais ou menos “violência”, “camuflagem”, estão sempre querendo algo em troca. Não pode ser justo o ser humano usar o amor como moeda de barganha. Não se demonstra amor dizendo a Deus: “Dê-me isto e eu amarei meu semelhante como a mim mesmo”.
A meu ver, isso não é certo. Mas o ser humano já está se habituando. Espero que não chegue o dia em que dizer “eu te amo” seja tão banal a ponto de causar o mesmo efeito de um “bom dia”. Porque na verdade ninguém realmente deseja que o ouvinte tenha um dia bom, mas essa é só uma forma de cumprimento. Ninguém analisa que efeito essa expressão possa causar no outro, apenas fala de forma muito, muito automática. Mais uma vez sem consciência do que está dizendo. E o outro, por sua vez, reage do mesmo modo.
Quando foi que nós tivemos a hombridade de ceder, de calar, de baixar a cabeça e reconhecer nosso próprio erro? Quando deixamos de comer porque já estamos alimentados e doamos o alimento? Ou quando, ao menos lembramo-nos de que alguém no momento da nossa refeição não tem o pão, a cama e o teto de cada dia?
Nós não pensamos, não refletimos porque para nós é mais conveniente nos fecharmos em nós mesmos. É mais fácil não lembrar, assim não sentimos culpa.
Como ter a coragem de falar em amor? Como amar sem conhecer o amor?
Se não se pode amar de verdade, numa total entrega de alma, não diga “eu te amo”. Ame primeiro, verbalize depois. Verbalizar é importante, mas só quando o sentimento é real. Tenha consciência do amor em cada momento, mesmo na fila do banco. O amor não é uma poesia que foi cantada por um poeta apaixonado, uma música nostálgica que ficou na história; o amor está aqui para ser sentido e, mais que isso, compartilhado. Ame sem se preocupar em dizer apenas por dizer. Não o usemos como moeda de troca. Não vendamos um sentimento. Seria uma violência sutil, mas ainda assim uma agressão.
Que o amor não seja um meio para mascarar quem realmente somos: egoístas. E que em nosso egoísmo não sejamos cada vez mais violentos para com o nosso irmão. Se não amamos por falta de capacidade e talento, não sejamos talentosos em enganar. Que aprendamos a dar os nomes certos aos sentimentos e paremos de generalizar todos os sentimentos em amor. Ódio é ódio, desejo é desejo, vaidade é vaidade, e amor é amor. Mesmo vindo acompanhado de outros sentimentos como amizade, cumplicidade, afinidade, afeto, o amor não pode ser reduzido a ser menos do que é: simplesmente amor. O eu, o tu e o ele sem diferenciações.
Amor é muito mais forte, é entrega total de forma segura, inocente, sem maldade, é abrir mão pelo outro, é olhar nos olhos, é contar segredos sem imaginar se será criticado, porque é também confiança. É sorrir mesmo quando é tempo de chorar, pelo simples motivo de estar perto. É não competir, mas desejar como se desejaria para si mesmo que a oportunidade seja de igual modo. É querer galgar os degraus juntos, é sofrer quando o outro não chegou ao topo na mesma ocasião. É dizer pausadamente e com todas as letras “EU TE AMO”. É dizer sabendo bem o que e porque se diz. É sentir que o amor flui da alma para os olhos, é sentir a verdade emanar de seu ser ao pronunciar estas palavras.
Se você não pode ser assim, então ainda acha que o seu amor é amor?   

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O significado do sexo

Uma das coisas mais lindas que existe é o sexo. Infelizmente, a "cultura" e as religiões mataram seu genuíno significado. O sexo é troca e entrega, é estar ali para o outro e o outro para você, e isso não é desprovido de sentido; fazer sexo sem roupas também tem um significado, pois esse ato de ficar nu traz em si a simbologia de que estamos apenas nós na relação (nós - eu e o outro), livre de qualquer impedimento, de qualquer cultura, crenças, livre de qualquer vergonha, pensamento, livre, enfim, dos nossos egos. Neste momento temos a certeza de que no entrelaçamento dos corpos também entrelaçamos nossa alma, nossos sentimentos e emoções; neste momento somos apenas um. 
Buscamos o nosso prazer, porém o encontramos ao dar prazer ao outro. Toda a sua prática passa pela fantasia e ao imaginar a união e a importância que temos nesse ato, nos sentimos únicos e amados.  
Entretanto, fomos levados a acreditar que o sexo é feio, subversivo, algo que tem que ser escondido, que é pejorativo e vulgar. Apenas um prazer terreno e, muitos, acreditam que mundano. Toda a repressão sexual que existiu ao longo dos milênios tem também o seu significado, não é por acaso que tentam até hoje matar o sexo e fazer dele algo banal e sujo. 
Sexo é energia vital, é libido, relacionado em Freud à Pulsão de Vida, energia que impulsiona para a frente, para a ação, é alegria e Amor. Em O assassinato de Cristo, de Wilhelm Reich, o autor diz que matamos Cristo todas as vezes que fazemos sexo apenas pelo prazer do corpo, pois o sexo é muito mais que isso, é energia de vida, e banalizar sua função é nos permitir a morte. Entenda-se, portanto, Cristo como energia vital, a energia que nos permeia desde os órgãos e pele, energia pela qual vivemos e existimos.
Segundo estes significados, vemos o sexo como uma das mais importantes ferramentas tanto para o adoecimento, como para a cura, para o tratamento terapêutico. Sim, pessoas adoecem por falta de sexo ou pela repressão dele alicerçado pela culpa. O que nos importa é o lugar em que nós o colocamos, mas temos que ter sempre o cuidado para não cairmos no senso comum de torná-lo pejorativo.
Se o sexo é energia vital que traz alegria ao ser, sendo comparado por Reich, por Osho, que usa inclusive a expressão do sexo nas páticas meditativas, à expressão de vida, e outros autores também que o veem como tratamento terapêutico, por que alguém teria a preocupação de torná-lo pecado, doença, mundano? A quem incomoda tanto a sua livre expressão a ponto de tornar impuro o que foi criado para ser sagrado? Pessoas foram mortas, torturadas e condenadas por praticá-lo. Isso também não pode ser desprovido de sentido.
A “liberdade de expressão” tão querida e reivindicada na década de 1960 ainda não é uma realidade conquistada por causa da dureza em nós em relação à aceitação do outro e do nosso próprio corpo e das suas necessidades, questão que gira ainda no âmbito da moral. Aceitar a si mesmo como desejante dessa liberdade sem sentir a culpa que nos é imposta sentir, implica aceitar também que o outro sente desejos que são naturais ao ser humano como ser biológico e que também como ser social e cultural necessita expressar no seu corpo o que as regras convencionadas disseram que não era para sentir.
A expressão do sexo deve ser livre, pois é lindo. Claro que me refiro ao sexo feito com cumplicidade, afeto, amor e não ao que acreditemos que ele significa, pois nada é mais perfeito que o momento de intimidade que compartilhamos com alguém nesse ato de entrega.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Desespero

E essa infinita sensação de estar caminhando por um caminho que não é meu. Vestindo roupas que não são minhas, tudo emprestado. Essa capa que esconde quem eu sou. Perdi o fio do exato momento em que eu comecei a me matar. Quem sou eu? Existe alguém em mim que quer sair e ser o Ser que nunca me permiti ser. Permiti a asfixia da minha essência. O grito que não sai.
Por que e para que eu nasci, qual é a minha missão aqui? Nasci para mais que isso. Por que eu nasci nessa encarnação? Preciso dessas respostas. Não quero morrer! Há ainda vida em mim? Onde? Somos "formigas que trafegam não sei por quê". Meu desespero é silencioso, é disfarçado pela capa que esconde quem eu sou. Há momentos que a capa está tão forte que acredito que é impossível de ser ragada. Que caminho ainda posso tomar? Às vezes, é tão difícil viver em mim, nesse corpo, nessas roupas que não são minhas.
Tantas palavras que não saem a não ser pelas lágrimas. Como falar para quem tem tantos argumentos e se os argumentos são tão coerentes que a sua própria coerência perde a razão? E o peito sempre sufoca.
Não sei exatamente em que ponto da minha vida comecei a me perder de mim. Não há motivos para arrependimentos, tudo o que fiz, se prejudicou alguém, este alguém não foi ninguém mais que eu mesma, mas a dor é por ter deixado que grito fosse abafado, que os nãos me calassem e me matassem.
Plagiando Cecília Meireles: "Em que espelho ficou perdida a minha face?".

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Por que contra a redução da maioridade penal?

A adolescência é uma fase de conflitos, fase de descobertas do até então desconhecido; a mente de um adolescente pode parecer bem desenvolvida para assuntos como sexo, por exemplo, mas, na verdade, o que ele apresenta é só aparência, porque todos os conflitos pelos quais ele passa nessa fase são permeados pela insegurança, por não saber se será aceito. Dá para imaginar como é doloroso ter que passar por essa fase sozinho, já que muitas vezes a própria família não pode ser fonte de segurança para ele. “Fazer besteira” na vida todos nós um dia já fizemos, em maior ou menor grau, o que há de especial na besteira que eu faço em relação à besteira que o outro faz? Há um dito religioso de que para Deus não há pecadinho ou pecadão, o que existe é pecado; então, por que o meu pecado seria considerado menor que de um assassino, por exemplo? Esse pensamento não justifica um crime obviamente, mas tira a sociedade da posição de “juíza” do adolescente em conflito com a lei.
Todo o ódio, sutilmente ou não, descarregado contra uma criança vai para o seu inconsciente, fica gravado no seu DNA, isso pode ocorrer perpassando inclusive muitas vidas e gerações. Sentimentos como rejeição o fazem ficar perdido, sem compreender por que está sendo rejeitado. Esse sentimento reprimido gera angústia, gera um sofrimento mudo e disfarçado, e é tão somente um mecanismo de defesa que precisa em algum momento ser expressado. Alguns seguem a arte, outros o silêncio, outros a loucura, o consumismo, o casamento sem amor, a religião, o tédio da vida cotidiana. E outros seguem o crime. Mas a realidade é que não dá para julgar quais são os caminhos mais ou menos adequados.
Não há castigo que eduque. A criança e o adolescente precisam de quem os oriente. Nas prisões não há orientação, há castigo e punição, e o que se consegue com isso é a alimentação do ódio e da violência.
O que precisa mudar é a sociedade como um todo, modos de pensar, consumir, de se relacionar. A discussão é sempre mais profunda, mas já ajuda não abrir a nossa boca para julgar, mas para acolher, compreender e nos perguntar qual é a nossa parcela de responsabilidade nisso.
Que sociedade queremos, se o ódio é cultuado por nós com tanta intensidade? Por que condenar quem já nasceu condenado?

Limpo em mim... 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Sapatilhas

Não quero raízes nos solados dos meus sapatos. Quero tão somente a liberdade, pés descalços que me levem aonde me der na telha, ainda que minha telha esteja um tanto destelhada. Quero no máximo sapatilhas leves que me permitam ir sempre mais longe.