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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O OLHAR DO OUTRO É O QUE POSSIBILITA A NOSSA PRESENÇA NO MUNDO

"Quando falamos da 'presença', afirmamos que o Ser é um ser-aí (dasein) antes de ser, ou seja, o Ser é entificado, o que acaba por ser limitado nas possibilidades de sua existência. O olhar do outro sobre ele anuncia aos outros e a ele próprio o que ele é. Entretanto, o Ser não é, mas está, e está sempre em contínuo movimento. O que ele é será sempre um aqui agora a cada momento. Ser, então, no sentido do verbo, é ser algo, entificado e fechado em seu conceito".

O parágrafo acima é um fragmento de um trabalho que apresentei em Salvador em 2015 em que falava sobre a teoria de Martin Heidegger, em Ser e Tempo, onde ele afirma que o Ser não tem essência. Hoje, entretanto, vejo-me impelida a questionar essa afirmação. Não que eu não concorde com ela, afinal estamos todo o tempo em movimento, vibrando incessantemente, mas porque, três anos depois e com outras leituras, a respeito do tema, tendo a pensar como seria para o Ser ter uma essência. 

Creio que o Ser sem essência do qual Heidegger fala já tenha sido bem explicado no fragmento, e o modo como ele está no mundo. Quando entificamos o Ser, fazemos dele algo fechado num conceito e cabível em uma nomenclatura. João, Maria, José, inteligente, hábil, intenso, inerte etc. etc. No entanto, o Ser não poder ser apenas o que dizem que ele é, como se coubesse em um rótulo. A sua subjetividade não pode ser abarcada por nomes, porque mudamos a cada momento, a cada instante uma célula morre em nosso corpo, outra nasce, os cabelos crescem, a vista cansa. Em cada um desses momentos somos outro Ser diferente do que fomos segundos atrás. Como disse Heráclito de Éfeso, "nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois da segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tampouco o homem". Essa afirmação é maravilhosa, pois nos resgata da visão determinista do mundo e nos dá a possibilidade de poder ser outra coisa que não esta que não nos agrada. Esta afirmação é, na verdade, libertadora.

Este ser-aí, apesar disso, se anuncia ao mundo de algum modo, sob a perspectiva do olhar do outro, que, de certo modo, mesmo não tendo a intenção, o entifica. Entificando, transforma-o em uma coisa, fechada em si, um conceito. Isso, tira absolutamente sua condição de Ser. Ao passar da condição de Ser a ente, perdemos nossa liberdade e ganhamos uma essência. Como somos um ser-aí; ou seja, um ser-no-mundo, estamos vulneráveis a isso, aos olhares, aos rótulos, somos o tempo todo dicionarizados. Pois antes de sermos qualquer coisa, já somos alguma coisa para o outro, o que molda o que somos para nós mesmos. Isso nos parece desesperador, mas, embora essa afirmação nos traga um desconforto, é pelo olhar do outro que estamos aqui, assumindo uma identidade.

Mas, se Heidegger está correto, e eu acredito que esteja, pois não somos, mas estamos (e estar é movimento, mudança, envelhecer, se transformar...), então não temos uma essência. Estar em fluxo com o universo é não ter essência. Mas,... O que significa dizer, e é esse o meu questionamento inicial, que nós temos uma essência?

Significa que, ao olharmos para nós, mesmo que no início e superficialmente, vemos sempre alguém que não somos nós, podemos ver camadas do outro. Nossos pais, avós, tios, mais tarde nossos professores, os colegas, a namoradinha, as plantas, as árvores, o céu, as estrelas, os programas de televisão, as músicas. Tantas coisas fazem parte de nós. Todos estes "entes" influenciam o modo como nos apresentamos no mundo, como nos vestimos, pensamos, comemos, influencia nossas preferências musicais, enfim, o que é nosso? Porém, apesar de parecer que realmente não existe uma essência, como afirmei antes, sou impelida a questionar essa afirmação quando busco algo maior que tudo isso. Uma força em nós que está além de nós. Uma essência chamada Universo, o Todo, Ser Superior, Fonte, Deus, como queira chamar. É como quando descascamos uma cebola, são camadas e depois mais camadas, no fim, nada sobra, mas a essência ainda está lá. Por que não pensar que assim também não seria com cada um de nós?

Diante disso, a essência, ainda que seja apenas uma ínfima partícula invisível a qual não podemos ao menos tocar, existe. Sou obrigada a ir além do pensamento de  Martin Heidegger na questão da essência. 


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