O parágrafo acima é um fragmento de um trabalho que apresentei em Salvador em 2015 em que falava sobre a teoria de Martin Heidegger, em Ser e Tempo, onde ele afirma que o Ser não tem essência. Hoje, entretanto, vejo-me impelida a questionar essa afirmação. Não que eu não concorde com ela, afinal estamos todo o tempo em movimento, vibrando incessantemente, mas porque, três anos depois e com outras leituras, a respeito do tema, tendo a pensar como seria para o Ser ter uma essência.
Creio que o Ser sem essência do qual Heidegger fala já tenha sido bem explicado no fragmento, e o modo como ele está no mundo. Quando entificamos o Ser, fazemos dele algo fechado num conceito e cabível em uma nomenclatura. João, Maria, José, inteligente, hábil, intenso, inerte etc. etc. No entanto, o Ser não poder ser apenas o que dizem que ele é, como se coubesse em um rótulo. A sua subjetividade não pode ser abarcada por nomes, porque mudamos a cada momento, a cada instante uma célula morre em nosso corpo, outra nasce, os cabelos crescem, a vista cansa. Em cada um desses momentos somos outro Ser diferente do que fomos segundos atrás. Como disse Heráclito de Éfeso, "nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois da segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tampouco o homem". Essa afirmação é maravilhosa, pois nos resgata da visão determinista do mundo e nos dá a possibilidade de poder ser outra coisa que não esta que não nos agrada. Esta afirmação é, na verdade, libertadora.
Este ser-aí, apesar disso, se anuncia ao mundo de algum modo, sob a perspectiva do olhar do outro, que, de certo modo, mesmo não tendo a intenção, o entifica. Entificando, transforma-o em uma coisa, fechada em si, um conceito. Isso, tira absolutamente sua condição de Ser. Ao passar da condição de Ser a ente, perdemos nossa liberdade e ganhamos uma essência. Como somos um ser-aí; ou seja, um ser-no-mundo, estamos vulneráveis a isso, aos olhares, aos rótulos, somos o tempo todo dicionarizados. Pois antes de sermos qualquer coisa, já somos alguma coisa para o outro, o que molda o que somos para nós mesmos. Isso nos parece desesperador, mas, embora essa afirmação nos traga um desconforto, é pelo olhar do outro que estamos aqui, assumindo uma identidade.
Mas, se Heidegger está correto, e eu acredito que esteja, pois não somos, mas estamos (e estar é movimento, mudança, envelhecer, se transformar...), então não temos uma essência. Estar em fluxo com o universo é não ter essência. Mas,... O que significa dizer, e é esse o meu questionamento inicial, que nós temos uma essência?
Significa que, ao olharmos para nós, mesmo que no início e superficialmente, vemos sempre alguém que não somos nós, podemos ver camadas do outro. Nossos pais, avós, tios, mais tarde nossos professores, os colegas, a namoradinha, as plantas, as árvores, o céu, as estrelas, os programas de televisão, as músicas. Tantas coisas fazem parte de nós. Todos estes "entes" influenciam o modo como nos apresentamos no mundo, como nos vestimos, pensamos, comemos, influencia nossas preferências musicais, enfim, o que é nosso? Porém, apesar de parecer que realmente não existe uma essência, como afirmei antes, sou impelida a questionar essa afirmação quando busco algo maior que tudo isso. Uma força em nós que está além de nós. Uma essência chamada Universo, o Todo, Ser Superior, Fonte, Deus, como queira chamar. É como quando descascamos uma cebola, são camadas e depois mais camadas, no fim, nada sobra, mas a essência ainda está lá. Por que não pensar que assim também não seria com cada um de nós?
Diante disso, a essência, ainda que seja apenas uma ínfima partícula invisível a qual não podemos ao menos tocar, existe. Sou obrigada a ir além do pensamento de Martin Heidegger na questão da essência.
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